18.12.2016

 

Título original: Un di Velt Hot Geshvign

Primeira publicação: 1958

Tradutor: Irene Ernest Dias

Editora: Ediouro (2006) – 120 páginas

ISBN13: 9788500020261

Sinopse: Neste livro de memórias, hoje um clássico, Elie Wiesel narra os horrores dos campos de concentração alemães na Segunda Guerra Mundial. Ainda criança, Wiesel sofreu as iniquidades impostas aos judeus. Viu de perto o mal personificado, testemunhou a morte de diversas pessoas, entre elas seus pais e sua irmã mais nova. Em seu discurso ao receber o Prêmio Nobel da Paz em 1986, Wiesel descreveu aquele ambiente como um lugar onde “homens e mulheres de todos os cantos da Europa foram abruptamente transformados em criaturas sem nome e sem rosto, desesperadas pela mesma ração de pão ou sopa, temendo o mesmo fim”. Depois da guerra, profundamente marcado pelo que viveu, Wiesel encontrou apenas uma arma para evitar que algo semelhante ocorresse novamente: a memória. “Para nós, esquecer nunca foi uma opção”, disse. Começou, então, sua nova jornada, em busca de uma maneira de narrar o que viveu. “Não foi fácil. Primeiro, por causa da linguagem. Nossa linguagem falhava. Teríamos de inventar um novo vocabulário, porque nossas próprias palavras eram inadequadas, anêmicas.”

Em “A noite”, escrito originalmente em francês, Wiesel encontrou essa linguagem: simples e direta, mas com enorme poder de emocionar. A narrativa impressiona, em primeiro lugar, pelo caráter desumano da tentativa de Hitler de construir uma raça pura e pela sinistra metodologia que a apoiou. Mas também impressiona, como escreveu no prefácio François Mauriac, Prêmio Nobel de Literatura em 1954, pela “morte de Deus nessa alma de criança que descobre subitamente o mal absoluto”. Este livro resulta de uma chaga que jamais será fechada. Após a agonia como prisioneiro, ao se deparar com sua própria imagem ao espelho, Wiesel constata: “Seu olhar nos meus olhos não me deixa jamais.” Olhos marcados pela descoberta de que seres humanos, crédulos em Deus, podem se transformar em monstros.

 

Elie Wiesel nasceu em 1928, num lugarejo chamado Sighet, na Romênia. Em 1944, foi deportado com sua família para os campos de concentração, até ser libertado em 1945. Na Sorbonne, Paris, estudou literatura, filosofia e psicologia. Como jornalista, conheceu François Mauriac, que acabou por incentivá-lo na carreira de escritor. Foi presidente do Conselho Memorial Unido do Holocausto entre 1980 e 1986, ano em que recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Ele morreu em 02 de julho de 2016, aos 87 anos, em Nova York, onde ele morava.

Wiesel escreveu 57 livros, sendo alguns deles baseados em suas memórias. “A noite” é um livro curto, mas muito intenso, em que ele descreve sua vida em Sighet antes da guerra, a chegada dos alemães com o isolamento dos judeus no gueto, a deportação para os campos de concentração na Polônia (Auschwitz-Birkenau e, depois, Buna) e, por fim, a caminhada em direção à Alemanha, com a aproximação dos Aliados.

As descrições são breves, como se ele estivesse contando sua história para alguém oralmente, com uma linguagem coloquial. Mas as memórias contadas não são de momentos felizes. Sua mãe e sua irmã caçula morreram no campo de concentração e ele não as vê mais após a separação. O pai permanece com ele até quase o fim; mas acaba morrendo de fraqueza após a marcha para a Alemanha, no campo de concentração de Buchenwald.

Confesso que no início do livro, quando ele descreve a deportação para o primeiro campo de concentração, embora ele cite a falta de comida e de água e as condições precárias em que viajavam, achei que ele estava sendo muito brando ao descrever os fatos. A tensão maior vem mais adiante, acompanhando sua fadiga e seu desgaste, até o ponto em que ele perde o desejo de continuar lutando por sua vida. Nessa etapa final, ele parece viver uma noite sem fim, doente, sonhando com comida, alimentando-se de neve, questionando se vale a pena se entregar à morte, tentando encontrar as forças para continuar a caminhada.

Não sei quanto tempo dormi. Alguns instantes ou uma hora. Quando acordei, uma mão congelada me dava palmadas no rosto. Esforcei-me para abrir as pálpebras: era meu pai.

Como ele tinha envelhecido desde ontem à noite! Seu corpo estava completamente torto, encolhido. Seus olhos petrificados, seus lábios murchos, podres. Tudo nele atestava uma extrema lassidão. Sua voz estava úmida de lágrimas e de neve:

━ Não se deixe levar pelo sono, Eliezer. É perigoso dormir na neve. A gente dorme para sempre. Venha, meu menino, venha. Levante-se.

Ele foi preso com 14 anos. E viu coisas que nunca foi capaz de esquecer.

Não longe de nós, de uma fossa subiam chamas, chamas gigantescas. Alguma coisa estava sendo queimada ali. Um caminhão se aproximou do buraco e despejou sua carga: eram criancinhas. Bebês! Sim, eu vi, vi com meus olhos… Crianças nas chamas. (É de se admirar então que desde aquela época o sono fuja de meus olhos?)

Embora ele descreva os maus tratos dos alemães, não foram estas as partes que mais me chocaram no livro. Acho que pelo fato de eu já ter lido exaustivamente sobre todas as atrocidades que eram cometidas nos campos. O que mais me chocou foi a descrição da mudança dos prisioneiros: de seres humanos com princípios éticos foram se transformando, pouco a pouco, em selvagens, lutando ferozmente por qualquer migalha de pão, capazes de matar o próprio pai, interessados apenas em buscar a própria sobrevivência, mas de uma forma instintiva, animal.

Mas o outro se jogou em cima dele e arrancou-lhe o bocado. O velho ainda murmurou alguma coisa, deu um suspiro e morreu, em meio à indiferença geral. O filho o revistou, pegou o pedaço e começou a devorá-lo. Não conseguiu ir muito longe. Dois homens o tinham visto e se atiraram em cima dele. Outros se juntaram a eles. Quando se retiraram, havia perto de mim dois mortos lado a lado, pai e filho. Eu tinha quinze anos.

É algo impossível de imaginar; uma cena capaz de aterrorizar mais do que qualquer filme assustador jamais feito. É a ruptura com qualquer traço de civilidade. Realmente, as pessoas foram transformadas em monstros.

Estrada sem fim. Deixar-se levar pela multidão, deixar-se arrastar pelo destino cego. Quando os S.S. se cansavam, eram substituídos. A nós, ninguém substituía. Com os membros transidos de frio, apesar da corrida, a garganta seca, esfomeados, ofegantes, nós continuávamos.

Nós éramos os mestres da natureza, os mestres do mundo. Tínhamos esquecido tudo, a morte, o cansaço, as necessidades naturais. Mais fortes que o frio e a fome, mais fortes que os tiros e o desejo de morrer, condenados e vagabundos, simples números, éramos os únicos homens na face da terra.

Eu entendo tanto aqueles que se calaram após a Segunda Guerra e se recusavam à reavivar as lembranças terríveis quanto os que tiveram necessidade de deixar registrados todos os horrores, numa tentativa desesperada de evitar novos eventos como estes que o mundo testemunhou.

À minha volta, tudo parecia dançar uma dança da morte. Era de dar vertigem. Estava andando em um cemitério. Entre os corpos endurecidos, troncos de madeira. Nem um grito de desespero, nem um lamento, apenas uma agonia em massa, silenciosa. Ninguém pedia ajuda a ninguém. Morria-se porque era preciso morrer. Não se colocavam dificuldades.

 

 

 

– Sílvia Souza

  Título original: Un di Velt Hot Geshvign Primeira publicação: 1958 Tradutor: Irene Ernest Dias Editora: Ediouro (2006) – 120 páginas ISBN13: 9788500020261 Sinopse: Neste livro de memórias, hoje um clássico, Elie Wiesel narra os horrores dos campos de concentração alemães na Segunda Guerra Mundial. Ainda criança, Wiesel sofreu as iniquidades impostas aos judeus. Viu […]



11.12.2016

o-remanescente

 

Primeira publicação: 30 de Outubro de 2016

Editora: Companhia das Letras – 504 páginas

ISBN13: 9788535928136

Sinopse: Ao desmontar a casa dos avós, o autor descobre nas gavetas um arquivo de fotografias, cartas e documentos amarelados. Para sua surpresa, a papelada revela que a história de seus antepassados era bastante diferente da que ele conhecia. E esses vestígios são o ponto de partida de uma tortuosa arqueologia familiar que se torna matéria da ficção em O remanescente. Da alta sociedade da República de Weimar à fuga para o Brasil sob identidade falsa, passando pelas turbulências do nazismo, o leitor conhecerá a história de Hugo Simon — banqueiro, ministro das Finanças da Prússia e grande colecionador de arte — e de sua família, num percurso que é quase um paroxismo da diáspora causada pela Segunda Guerra.

 

 

Este é mais um livro enviado pelo Grupo Companhia das Letras, em sua parceria com meu blog. Ele foi lançado no dia 30 de outubro e chegou até mim no início de novembro. Imediatamente, comecei a ler. E a leitura envolvente faz com que não se tenha vontade de interromper.

O autor, Rafael Cardoso, nasceu em 1964, no Rio de Janeiro, mas viveu a maior parte de sua infância nos Estados Unidos. É historiador da arte e do design, com diversas obras publicadas na área. Estreou na ficção em 2000 com A maneira negra.

O Rafael descreve que seu avô morreu quando ele tinha 14 anos; após 5 anos, morreu sua avó, e, pouco tempo depois, foram sua tia-avó e seu pai. Nessa época ele tinha 23 anos. E ele foi o responsável por limpar a casa dos avós. Foi nessa arrumação que ele encontrou as fotos e documentos da família de seu pai, da época da Segunda Guerra, com os passaportes falsos que a família usou para fugir da Alemanha nazista. Até seus 16 anos, ele achava que sua família era francesa; apenas quando ele tinha esta idade, seus avós conseguiram reaver sua identidade alemã e ele soube sobre sua origem judaica.

Seu bisavô, Hugo Simon, era um judeu alemão e chegou a ser influente na política na época da República de Weimar. Ele era banqueiro, pacifista e socialista e foi ministro das Finanças do Estado da Prússia. Além disso, foi colecionador de arte, chegando a ser o proprietário da versão em pastel da obra O grito de Munch, entre 1926 e 1937. Era amigo de Albert Einstein e de Thomas Mann.

Quando Hitler subiu ao poder na Alemanha e começou a perseguir os judeus, eles migraram para a França, onde as filhas já moravam. Mas, em 1940, com a anexação da França pela Alemanha, o bisavô dele passou a ser perseguido. Hugo e a esposa adotaram identidades falsas (tchecas), enquanto as filhas e o genro adotaram identidades francesas. Todos conseguiram fugir da França através da Espanha e migraram para o Brasil.

O exílio os adestrara a aceitar o inaceitável. Não tinha sentido gastar energia debatendo como as coisas deveriam ser, ou não. Só existiam as coisas como eram, e o que podia ser feito de prático para se adequar a elas.

Este livro é o Volume Um da história dos antepassados do autor, e foi chamado de “O tempo no exílio”. Embora seja baseado nesta história verdadeira, como seus avós nunca contaram sobre o que viveram, o livro é uma obra ficcional. Rafael Cardoso conta um pouco sobre as pesquisas que fez e o livro relata vários eventos históricos importantes e reais. Ele realmente é bastante fiel a todo o período da Guerra e àquele que se seguiu. Mas não é uma biografia. É realmente um romance.

O mundo da produção em massa, dos meios irrestritos e do potencial ilimitado era perigoso ao extremo. Não existia nele lugar para divergir das metas e das cotas. Se algo contrariasse a lógica produtiva, fazia-se necessário esmagá-lo e descartá-lo, por questão de eficiência. A adoção do realismo socialista na União Soviética não deixava dúvida de que os comunistas teriam tão pouca simpatia por divergências das normas prescritas quanto a tiveram os nazistas.

O livro vai conquistando o leitor conforme ele vai se desenvolvendo. Entramos na história desta família que passa a viver com medo, desde a época da Guerra até ter segurança para ir atrás das identidades reais, sem medo de serem extraditados e mortos.

Eles abandonaram suas casas, todos os seus bens, de um dia para outro. Adotaram nomes falsos e aprenderam a adotá-los como se fossem reais. Fugiram para um país distante, enfrentaram um idioma desconhecido, a hostilidade de um governo ditatorial que tinha pontos em comum com o nazi-fascismo. Chegaram sem nada, sem conhecer ninguém, refizeram suas vidas. Os bisavós do autor moraram no Rio de Janeiro, em Penedo e em Barbacena. Os avós e a tia-avó (eles não podiam todos morar como uma família porque as identidades indicavam que não eram parentes) moraram no Rio de Janeiro, no Paraná, e terminaram a vida morando em São Paulo, na região de Interlagos.

Em Minas, logo viria a ser primavera. Tempo de plantar. Ajoelhar-se mais uma vez e aclimatar as mudas tenras ao solo. Cultivar significava o trabalho diário de resguardar a safra e o rebanho acumulados; consertar o que estava velho, construir o novo; preparar o terreno, plantar, capinar, colher, armazenar; e, ao final, recomeçar tudo.

É uma leitura bastante envolvente, muito rigorosa nos dados históricos, mas nunca sendo cansativa ou extremamente descritiva.

Recomendadíssima!

 

 

 

  Primeira publicação: 30 de Outubro de 2016 Editora: Companhia das Letras – 504 páginas ISBN13: 9788535928136 Sinopse: Ao desmontar a casa dos avós, o autor descobre nas gavetas um arquivo de fotografias, cartas e documentos amarelados. Para sua surpresa, a papelada revela que a história de seus antepassados era bastante diferente da que ele […]



4.12.2016

o-filho-de-mil-homens

 

Primeira publicação: Janeiro de 2011

Editora: Cosac Naify (Abril de 2012) – 208 páginas

ISBN13: 9788540501768

Sinopse: Novo romance do escritor português Valter Hugo Mãe, O filho de mil homens narra a história do pescador Crisóstomo, “um homem que chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter tido um filho”. Com vontade imensa de ser pai, o protagonista conhece o órfão Camilo, que um dia aparece em sua traineira. Ao redor dos dois, outros personagens testemunham a invenção e construção de uma família em vinte capítulos, escritos com rara delicadeza. Mãe, ao falar de uma aldeia rural e dos sonhos anulados de quem vive nela, atravessa temas como solidão, preconceitos, vontades reprimidas, amor e compaixão.

 

 

Valter Hugo Mãe é o nome artístico do escritor português Valter Hugo Lemos. Ele nasceu em Saurimo, Angola, em 1971. Passou a infância em Paços de Ferreira e, atualmente, vive em Vila do Conde. Além de escritor, é editor, artista plástico e cantor.

É licenciado em Direito e pós-graduado em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea. Vencedor do Prêmio José Saramago no ano de 2007. É autor dos livros de poesia: Livro de Maldições (2006); O Resto da Minha Alegria Seguido de a Remoção das Almas e Útero (2003); A Cobrição das Filhas (2001); Estou Escondido na Cor Amarga do Fim da Tarde e Três Minutos Antes de a Maré Encher (2000); Egon Shiele Auto-Retrato de Dupla Encarnação (Prêmio de Poesia Almeida Garrett) e Entorno a Casa Sobre a Cabeça (1999); O Sol Pôs-se Calmo Sem Me Acordar (1997) e Silencioso Sorpo de Fuga (1996). Escreveu romances e livros infantis.

Uma coisa que me agrada muito nos textos de Valter Hugo Mãe é sua escrita intimista e quase poética. É uma leitura que dá prazer não só pela história, mas pela combinação das palavras, pela beleza da escrita em si, como forma além de conteúdo. É daqueles escritores que sentimos felicidade de termos tido a chance de conhecer, de entrar em contato.

O livro O filho de mil homens é de uma beleza única. Ele conta a história de várias pessoas, inicialmente sozinhas, cujas vidas vão sendo, pouco a pouco, entrelaçadas. E mais do que a história destas solidões, o que comove no livro é a crítica à intolerância em suas várias formas. E não é uma crítica aberta, frontal, explícita. Não. Há inclusive momentos em que ele mesmo parece assumir uma atitude intolerante, por causa do uso das palavras, cruas, cruéis. Mas é justamente essa forma dolorosa que ele usa para nos mostrar o absurdo de julgarmos os outros, de assumirmos verdades baseados apenas nas aparências, de criticarmos os outros e jogarmos para baixo do tapete nossos próprios problemas.

Os personagens são Crisóstomo, Camilo, Antonino, Isaura, Maria, Matilde, Rosinha… são vários personagens que aparecem independentes no início do livro. Os primeiros capítulos são como contos isolados, em que cada personagem é apresentado. No início, eu realmente não sabia se era um livro de contos ou se haveria um cruzamento da vida dos personagens.

Aos pouquinhos, as conexões vão sendo construídas. E cada solidão vai se ligando a outra solidão… e as pessoas sensíveis e tão pouco enquadradas na sociedade mesquinha e hipócrita vão aprendendo a encontrar pessoas semelhantes e acabam encontrando pessoas para amar e que as amem também.

Eu não queria escrever demais sobre a história, porque a forma linda como Valter Hugo Mãe apresenta cada personagem e como vai construindo estas pontes entre eles merece ser lida no livro e não ser contada por mim, que certamente não conseguirei manter a poesia e o lirismo com que o livro nos encanta.

Eu gostaria muito de que as pessoas lessem esse livro, que conta uma história de amor, aceitação, perdão, amizade, tolerância.

O que eu gostaria é de deixar alguns trechos, poéticos, reflexivos, maravilhosos.

Quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz.

Ela olhou por sobre o muro e percebeu que, mínima e a diminuir, estava a trancar-se cada vez mais, como a fugir por dentro, para longe, para um lugar tão distante que podia existir só dentro das pessoas.

Amanhecera vazia, sem ninguém dentro de si mesma, e foi como se encheu com a ideia de afinal ser impossível esquecer o amor. Porque o amor era espera e ela, sem mais nada, apenas esperava. (…) Ela esperava o futuro, e esperar era já um modo de amar. Esperar era amar. Certamente, amava de um modo impossível o futuro. Disse: eu pensava que o amor era bom.

Era uma mulher carregada de ausências e silêncios.

Ser o que se pode é a felicidade.

(…) Não adianta sonhar com o que é feito apenas de fantasia e querer aspirar ao impossível. A felicidade é a aceitação do que se é e se pode ser.

O Antonino explicou-lhe que não queria ser mulher e que gostava de mulheres e lhes prestava atenção. Disse que admirava a liberdade que tinham para a expressão da sensibilidade, achava que era como uma permissão para ter a alma à solta, autorizada a manifestar-se pela beleza ou pelo espanto de cada coisa. Estava autorizada à sensibilidade que fazia da vida uma travessia mais intensa. As mulheres, pensava ele, eram mais intensas.

Hoje é do que mais tenho saudade. Desse sentimento, que na sua plenitude talvez se reserve às crianças, de acreditar que alguém cuida de nós segundo o nosso mérito. Quando se perde essa convicção, fica-se irremediavelmente sozinho. Os pais e os filhos são o único modo de interferir positivamente nessa solidão.

 

 

 

 

  Primeira publicação: Janeiro de 2011 Editora: Cosac Naify (Abril de 2012) – 208 páginas ISBN13: 9788540501768 Sinopse: Novo romance do escritor português Valter Hugo Mãe, O filho de mil homens narra a história do pescador Crisóstomo, “um homem que chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter tido um filho”. Com […]






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