7.11.2016

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Quando a Márcia Cogitare me convidou para o Projeto Clarice Lispector que ela idealizou, nem pensei a respeito. É claro que adoraria participar. Leríamos dois contos por semana, do livro Todos os Contos de Clarice Lipector, e escreveríamos nossas impressões a respeito, sem comentarmos previamente, cada uma em seu próprio blog.

Eu costumo sempre escolher uma imagem para minhas publicações. Mas não queria colocar em todos os textos a mesma imagem da capa do livro e nem mesmo uma foto da Clarice. Gosto de obras de arte e acho que elas dizem tanto quanto as palavras; às vezes mais.

Cheguei a um dilema: pinturas de qual artista? Usar vários? Cada vez um diferente? Qual seria um artista que eu admiro e cujas obras eu achava que combinavam com os escritos da Clarice, incômodos aos mesmo tempo que belos? De imediato, pensei em Marc Chagall. Gosto demais das obras dele. São de uma beleza única, alegres e melancólicos ao mesmo tempo (se isto for possível). Marc Chagall era de origem judaica, nascido na Bielorrússia. Clarice Lispector também era judia, nascida na Ucrânia. Tudo combinava.

Só me faltava esclarecer uma coisa: será que havia algum pintor por quem Clarice tivesse uma admiração especial?

Ainda bem que vivemos na época do Google e da informação de fácil acesso. Achei uma entrevista publicada no Jornal do Commercio, em 02 de Junho de 2013, com Carlos Mendes de Sousa sobre Clarice Lispector. O pesquisador português escreveu o livro Clarice Lispector – pinturas, no qual fala sobre as telas que Clarice pintava (eu não sabia que ela tinha se dedicado à pintura também). Segue um trecho da entrevista:

JORNAL DO COMMERCIO – Você é um dos maiores estudiosos da obra de Clarice Lispector. Como foi seu primeiro contato com a autora? Ainda se mantém essa fascinação inicial da sua obra?

CARLOS MENDES DE SOUSA – O primeiro contato com a obra de Clarice foi há muito anos, quando eu era estudante em Coimbra. Não foi nas aulas que me foi revelada a obra da autora de A hora da estrela; tratou-se de uma descoberta puramente casual, numa biblioteca da Faculdade de Letras, quando eu procurava livros para um estudo sobre José Lins do Rego. Na altura, em 1979, Clarice ainda não era muito conhecida em Portugal, como passou a ser nos últimos tempos. Muita água correu a seguir a esse longínquo ano. Mais tarde, dediquei-me de alma e coração à obra de Clarice, fazendo o meu doutorado sobre a sua obra. Revisitando-a tantas vezes, em trabalhos de pesquisa e na escrita de ensaios, mantenho a mesma fascinação da primeira vez, fruindo imensamente a sua escrita.

JC – Em Clarice Lispector – pinturas, a ideia é estudar um aspecto menos conhecido da trajetória de Clarice. Como seus quadros se relacionam com sua obra escrita? Os livros podem ajudar a entender as pinturas, ou vice-versa?

SOUSA – Os quadros podem iluminar alguns aspectos da leitura da obra extraordinária da escritora. Na verdade, é difícil separar as coisas. É difícil desligarmos a vasta produção literária de Clarice desta sua faceta como pintora ocasional. Existe uma inter-relação estreita e é por isso que os livros ajudam a ver melhor os quadros. Estamos diante de duas faces de um mesmo processo, o processo criativo de Clarice. O objetivo primeiro do meu livro foi o de divulgar as pinturas de Clarice, mas era inevitável que o livro desse conta do modo como o impacto visual se manifesta nos mais diversos planos da obra.

(…)

JC- Clarice dizia que a pintura era a atividade mais pura da sua vida. Era para ela uma forma de fugir da angústia da escrita? Por que, na sua visão, pintar era algo tão leve para ela?

SOUSA – Clarice diz que a pintura era para ela uma forma de descontração e contrapõe essa atividade ao ato da escrita, mais tormentoso. No entanto, é interessante ver que, maioritariamente, os quadros de Clarice não revelam um mundo de levezas. Veja-se o que ela disse sobre o quadro intitulado Medo; afirmou que esse quadro arrancou de si “todo o horror que um ser sente no mundo” para acrescentar: “olhar esse quadro me faz mal”. Os quadros provocam alguma estranheza a quem olha para eles. Mas nessa mesma estranheza eles são absolutamente claricianos. Podemos inclusivamente encontrar neles marcas de contaminação (de diálogo) com a coisa literária, desde os títulos que Clarice escolheu à forma como inscreveu esses nomes nos quadros, muitas vezes com rasuras e acréscimos, como se estivesse a trabalhar num manuscrito ou num datiloscrito.

JC – Na obra, você mostra que Clarice sempre viveu ao redor do ambiente das artes plásticas e era admiradora de diversos artistas e lia sobre a crítica de arte. Quais eram os pintores preferidos dela? Algum deles foi uma influência no trabalho delas – tanto nos livros como nos quadros?

SOUSA – Há um caso curioso que eu trato no meu livro que é a referência a Chagall em vários lugares. Tanto na obra como em declarações em entrevistas refere a predileção por este pintor. O que surpreende é o fato de a pintura de Chagall nos parecer bastante distanciada do mundo clariciano, o mundo dos seus livros ou o mundo dos seus quadros.

E, de repente, eu tinha escolhido um dos meus pintores preferidos, cujos quadros me transmitem algo extremamente profundo, de uma beleza melancólica, e este mesmo pintor era, provavelmente, um dos pintores preferidos de Clarice Lispector!

Eu achei incrível e fiquei muito feliz!

É por todos estes motivos que as ilustrações utilizadas nas minhas publicações sobre os contos de Clarice Lispector são sempre obras de Marc Chagall.

– Sílvia Souza

 

  Quando a Márcia Cogitare me convidou para o Projeto Clarice Lispector que ela idealizou, nem pensei a respeito. É claro que adoraria participar. Leríamos dois contos por semana, do livro Todos os Contos de Clarice Lipector, e escreveríamos nossas impressões a respeito, sem comentarmos previamente, cada uma em seu próprio blog. Eu costumo sempre […]


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