2.11.2016
"Maternité rouge" de Marc Chagall

“Maternité rouge” de Marc Chagall

 

Dando continuidade ao Projeto Clarice Lispector, para o qual a Márcia Cogitare do Blog Surtos Literários me convidou para participar, vou escrever a respeito do conto chamado Trecho. Não deixem de ler a publicação da Márcia clicando no nome do Blog acima.

Neste conto, uma jovem chamada Flora senta-se à mesa de um bar, enquanto aguardava a chegada de Cristiano. Embora sua idade não seja revelada, subentende-se que seja uma moça muito jovem, bastante insegura e receosa quanto ao seu futuro. Ela se sente invisível aos olhos das pessoas à sua volta, julgada por todos, inclusive pelos funcionários do bar; não sabe como se portar, como sentar, como segurar sua bolsa, incomodada pela saia justa demais.

Espera por Cristiano que não chega nunca; até o ponto dela mesma duvidar se ele irá ao encontro.

Tenho vontade de chorar, porque hoje é um grande dia, porque hoje é o maior dia de minha vida. Mas vou conter em algum cantinho escondido de mim (atrás da porta? que absurdo) tudo o que me atormentar até a chegada de Cristiano. Vou pensar em alguma coisa. Em quê? “Meus senhores, meus senhores! Eis-me aqui pronta para a vida! Meus senhores, ninguém me olha, ninguém nota que eu existo. Mas, meus senhores, eu existo, eu juro que existo! Muito, até. Olhem, vocês, que têm esse ar de vitória, olhem: eu sou capaz de vibrar, de vibrar como a corda esticada de uma harpa. Eu posso sofrer com mais intensidade do que todos os senhores. Eu sou superior. E sabem por quê? Porque sei que existo.”

Enquanto espera, ela pensa em sua vida, em sua infância, em como gostava de brincar, até perceber que “não foi difícil brincar de amante de Cristiano”. E dessa brincadeira, nasceu uma menina loira e de olhos castanhos, Nenê.

A dona da casa onde moramos, meus senhores, jura como é frequente o abandono de moças com filhos. Conhece até três casos. Que dizem?

E estes pensamentos fazem com que se sinta ainda mais insegura quanto ao comparecimento de Cristiano nesse encontro marcado.

Se eu não procurar me salvar, afogo-me. Pois se o Cristiano não vier, quem dirá a toda essa gente que eu existo?

Este sentimento angustiante que acometia as mulheres frente a um possível abandono, especialmente depois da concepção de uma criança, era algo terrível. Com muita frequência, as famílias não aceitavam o fato e a sociedade costumava isolá-la de todo tipo de convívio. Ao menos, esta situação, hoje em dia, é um pouco mais branda, embora ainda seja um peso muito maior para a moça e sua família do que para o rapaz pai da criança.

“Meus senhores, agora justamente que eu tinha tanto para dizer, não sei me exprimir. Sou uma mulher grave e séria, meus senhores. Tenho uma filha, meus senhores. Poderia ser um bom poeta. Poderia prender quem eu quisesse. Sei brincar de tudo, meus senhores. Poderia me levantar agora e fazer um discurso contra a humanidade, contra a vida. Pedir ao governo a criação de um departamento de mulheres abandonadas e tristes, que nunca mais terão o que fazer no mundo. Pedir qualquer reforma urgente. Mas não posso, meus senhores. E pela mesma razão nunca haverá reformas. É que em vez de gritar, de reclamar, só tenho vontade de chorar bem baixinho e ficar quieta, calada.

E quem de fato era Flora, seus sonhos, seus projetos de vida, ninguém poderia saber. Talvez nem ela mesma soubesse.

É preciso que aquela Flora desconhecida de todos, apareça, afinal.

 

 

  Dando continuidade ao Projeto Clarice Lispector, para o qual a Márcia Cogitare do Blog Surtos Literários me convidou para participar, vou escrever a respeito do conto chamado Trecho. Não deixem de ler a publicação da Márcia clicando no nome do Blog acima. Neste conto, uma jovem chamada Flora senta-se à mesa de um bar, enquanto aguardava […]


  • Monica

    Somos desconhecidas de nós mesmas…

    Beijos

  • Marcia Cogitare

    O fato de Flora ter consciência de sua existência mas não de suas potencialidades é muito interessante neste conto.

    E vc lembrou muito bem sobre aquela época ser bem complicado ser mãe solteira.

    Hug

    • Pela descrição, ela devia ser muito jovem… provavelmente não tinha tido tempo de saber do que era capaz antes de se tornar mãe e pária na sociedade…

      • Marcia Cogitare

        Não tinha parado neste detalhe de ela ser muito jovem. bem lembrado.

        Hug


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