29.08.2016
Elétrico de Sintra, Portugal

Elétrico de Sintra, Portugal

 

Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, e plebeia sociabilização de mim, do Interseccionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Gênio e na divina consciência da minha Missão. Hoje só me quero tal qual meu caráter nato quer que eu seja; e meu Gênio, com ele nascido, me impõe que eu não deixe de ser.

Atitude por atitude, melhor a mais nobre, a mais alta e a mais calma. Pose por pose, a pose de ser o que sou.

Nada de desafios à plebe, nada de girândolas para o riso ou a raiva dos inferiores. A superioridade não se mascara de palhaço; é de renúncia e de silêncio que se veste.

O último rasto de influência dos outros no meu carácter cessou com isto. Reconheci — ao sentir que podia e ia dominar o desejo intenso e infantil de « lançar o Interseccionismo» — a tranquila posse de mim.

Um raio hoje deslumbrou-me de lucidez. Nasci.

Fernando Pessoa, ‘Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação’

  Hoje, ao tomar de vez a decisão de ser Eu, de viver à altura do meu mister, e, por isso, de desprezar a ideia do reclame, e plebeia sociabilização de mim, do Interseccionismo, reentrei de vez, de volta da minha viagem de impressões pelos outros, na posse plena do meu Gênio e na divina consciência da minha Missão. Hoje […]




28.08.2016

Mayombe

 

Primeira publicação: 1980

Editora: Leya (2013) – 254 páginas

ISBN13: 9788580446876

Sinopse: Publicado originalmente em 1980, Mayombe foi escrito durante a participação de Pepetela na guerra de libertação de Angola, e retrata o cotidiano dos guerrilheiros do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) em luta contra as tropas portuguesas. O romance inova ao abordar não somente as ações, mas os sentimentos e reflexões daquele grupo, as contradições e conflitos que permeavam sua organização e as relações estabelecidas entre pessoas que buscavam construir uma nova Angola livre da colonização.

 

 

O autor, Pepetela, nasceu em Benguela, Angola, em 1941. Licenciou-se em Sociologia, em Argel, durante o exílio. Foi guerrilheiro pelo MPLA, político e governante. Foi, desde 1984, professor na Universidade Agostinho Neto, em Luanda. Em 1997, recebeu o Prêmio Camões.

Este livro foi acrescentado à lista de leitura da FUVEST, o vestibular que seleciona os alunos da USP. E, por este motivo, sua leitura foi indicada para o meu filho mais velho. Eu nunca tinha ouvido falar de Pepetela e não conhecia nada da literatura angolana. Logo que o Gabriel terminou o livro, comecei a lê-lo. E, após o término, posso afirmar que sua leitura foi uma grata surpresa.

O romance, narrado em terceira pessoa, conta um pouco sobre o dia a dia do MPLA: como viviam no acampamento que ficava no meio da mata, a hierarquia dentro do grupo, como recebiam e batizavam os novos membros, as dificuldades. E o que enriquece muito o livro é que ele não descreve apenas as ações, os embates; ele descreve muito da filosofia dos combatentes, as diferentes opiniões, seus pensamentos e dúvidas.

O livro tem vários trechos narrados em primeira pessoa, como se fossem cartas ou depoimentos, de cada um dos guerrilheiros que faziam parte do grupo, com suas reflexões sobre diferentes assuntos. E esta capacidade que Pepetela teve de mostrar tantos olhares diferentes sobre o movimento de libertação, sobre problemas pessoais, sobre disputas, deixou a obra ainda mais interessante, porque ele não nos dá uma visão fechada sobre a guerrilha, sobre os aspectos políticos ou ideológicos.

Uma dificuldade inicial, maior do que as ligeiras diferenças do português do Brasil e do português de Angola, foi a de me acostumar aos nomes dos guerrilheiros: Teoria, Mundo Novo, Sem Medo, Lutamos… e assim por diante. Tive uma surpresa inicial, sem entender a forma como estava empregado um substantivo ou um verbo. Mas rapidinho me acostumei aos nomes.

E ainda teve a capacidade de mostrar um pouco sobre as divergências entre as diferentes tribos e suas disputas seculares. Eles se juntam na tentativa de combater um inimigo comum, o português, o explorador. Mas existem muitas rivalidades entre indivíduos de tribos originalmente inimigas.

O livro é muito rico em sua narrativa, na história criada, em sua descrição de Angola e em inúmeros questionamentos filosóficos. O Gabriel, meu filho, também gostou muito; ele ficou muito envolvido pela história, pelos guerrilheiros e suas batalhas e por algumas descrições mais sensuais entre alguns casais no livro.

Acho que foi uma grande iniciativa a da FUVEST de incluir outros escritores de língua portuguesa, além dos brasileiros e portugueses. Abre a mente para novas culturas e novas ideias.

Alguns trechos do livro:

EU, O NARRADOR, SOU TEORIA

Nasci na Gabela, na terra do café. Da terra recebi a cor escura de café, vinda da mãe, misturada ao branco defunto do meu pai, comerciante português. Trago em mim o inconciliável e é este o meu motor. Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. A culpa será minha se os homens exigem a pureza e recusam as combinações? Sou eu que devo tornar-me em sim ou em não? Ou são os homens que devem aceitar o talvez? Face a este problema capital, as pessoas dividem-se aos meus olhos em dois grupos: os maniqueístas e os outros. É bom esclarecer que raros são os outros, o Mundo é geralmente maniqueísta.

(…)

Como é dramático ter sempre de escolher, preferir um caminho a outro, o sim ou o não! Por que no Mundo não há lugar para o talvez?

 

(…) As pessoas devem estudar, pois é a única maneira de poderem pensar sobre tudo com a sua cabeça e não com a cabeça dos outros. O homem tem de saber muito, sempre mais e mais, para poder conquistar a sua liberdade, para saber julgar. Se não percebes as palavras que eu pronuncio, como podes saber se estou a falar bem ou não? Terás de perguntar a outro. Dependes sempre de outro, não és livre. Por isso toda a gente deve estudar, o objetivo principal duma verdadeira Revolução é fazer toda a gente estudar. Mas aqui o camarada Mundo Novo é um ingénuo, pois que acredita que há quem estuda só para o bem do povo. É essa cegueira, esse idealismo, que faz cometer os maiores erros. Nada é desinteressado.

(Sem Medo)

(…) Se não houvesse revolução, com certeza acabaria como escritor, que é outra maneira de ser solitário.

(…)

(…) Penso que já me habituei demasiado a ser o único dono de mim próprio, para me poder partilhar. Ou então arranjaria uma mulher em quem mandasse, o que não é meu estilo. Viver duradoiramente com uma mulher, respeitar os seus desejos, confrontá-los com os meus, procurar um compromisso quando os desejos são divergentes, aceitar que ela decida, como eu, sobre os pequenos e grandes problemas, tudo isso hoje me é difícil. Tornei-me demasiado independente. Para continuar a fazer uma vida independente, mesmo casado, então não vale a pena. Prefiro a independência duma vida e a dependência duma noite, de vez em quando. A menos que apareça a mulher excecional, aquela que só aparece uma vez numa década! Até aqui não a encontrei.

(Sem Medo)

Felizes os que creem no absoluto, é deles a tranquilidade do espírito! Não queres ser feliz, seguríssimo de ti mesmo? Arranja um catecismo…

(Sem Medo)

O amor é assim. Se se torna igual, a paixão desaparece. É preciso reavivar a paixão constantemente. (…) Mas sentimentalmente tínhamos parado. Chegámos à estabilidade. A culpa foi minha que me acomodei à situação, que não me apercebi que a rotina é o pior inimigo do amor.

(…)

Se uma pessoa se mostra toda ao outro, o interesse da descoberta desaparece. O que conta no amor é a descoberta do outro, dos seus pecadilhos, das suas taras, dos seus vícios, das suas grandezas, os seus pontos sensíveis, tudo o que constitui o outro. O amante que se quer fazer amar deve dosear essa descoberta. Nem só querer tudo saber num momento, nem tudo querer revelar. Tem de ser ao conta-gotas. E a alma humana é tão rica, tão complexa, que essa descoberta pode levar uma vida.

(…)

A mulher sem personalidade, que vive em função do outro, a submissa, é como o homem que aceita a desgraça sem se revoltar. Uns medíocres!

(Sem Medo)

Muitas vezes tenho de fazer um esforço para evitar de engolir como verdade universal qualquer constatação particular. Uma pessoa está habituada a não discutir, a não pôr em questão uma série de ensinamentos que lhe vieram da infância. É preciso uma atenção constante para não cair na facilidade, não atirar como um rótulo para a frente e assim fugir a uma análise profunda do facto. Porque o esquematismo, o rotulismo, são o resultado duma preguiça intelectual. Preguiça intelectual ou falta de cultura. Mas é a primeira que é grave. Claro que também é uma covardia.

(Sem Medo)

Quem se mete entre um homem e uma mulher nunca resolve nada, antes complica. Mas não te posso dizer, João. Como dizer: não acreditas nas fadas boas? Como dizer-te que se eu tentasse fazer-vos colar talvez fosse eu o ácido que acabaria por corroer a vossa frágil ligação? As coisas devem passar-se só entre vocês, nunca aceites um conselheiro no casal, João. Como dizer? Quantos lares destruídos por terceiros armados em aprendizes feiticeiros? Destruídos aqueles que tinham os alicerces em ruínas. É o teu caso, João. É sempre o caso quando tem de se pedir o auxílio de terceiros. A gangrena já destruiu os alicerces, a cola não serve para nada, é preciso desmoronar para construir de novo. Sim, mas como dizer?

(…)

É o cigarro alimentando o vício, aquele que se diz ser o último. Por que não deixar de fumar de vez? Medo do salto no abismo. Agarramo-nos desesperadamente a raízes frágeis, atrasando apenas o inevitável.

(Sem Medo)

(…) Queremos transforma o mundo e somos incapazes de nos transformar a nós próprios. Queremos ser livres, fazer a nossa vontade, e a todo o momento arranjamos desculpas para reprimir os nossos desejos. E o pior é que nos convencemos com as nossas próprias desculpas, deixamos de ser lúcidos. Só covardia. É medo de nos enfrentarmos, é um medo que nos ficou dos tempos em que temíamos Deus, ou o pai ou o professor, é sempre o mesmo agente repressivo. Somos uns alienados. O escravo era totalmente alienado. Nós somos piores, porque nos alienamos a nós próprios. Há correntes que já se quebraram mas continuamos a transportá-las connosco, por medo de as deitarmos fora e depois nos sentirmos nus.

(Sem Medo)

Para que estragar tudo, procurando a continuidade impossível? Há coisas feitas para serem únicas, tal esta noite.

(Sem Medo)

 

 

 

  Primeira publicação: 1980 Editora: Leya (2013) – 254 páginas ISBN13: 9788580446876 Sinopse: Publicado originalmente em 1980, Mayombe foi escrito durante a participação de Pepetela na guerra de libertação de Angola, e retrata o cotidiano dos guerrilheiros do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) em luta contra as tropas portuguesas. O romance inova ao abordar não somente as […]




28.08.2016
"Seated woman with a book" de John Singer Sargent (1856-1925)

“Seated woman with a book” de John Singer Sargent (1856-1925)

 

Publicações da Semana:

 

 

  Publicações da Semana: Livro “Em busca de sentido: um Psicólogo no Campo de Concentração” de Viktor E. Frankl Exercício de escrita Quadra Você sabe com quem está falando? Medicina e Saúde: Hormônios e Câncer Falsa segurança Contribuição 4 O que eu faço?    







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